Relacionamentos: por que pessoas diferentes despertam as mesmas dores?

Entenda como experiências da infância e adolescência podem influenciar suas escolhas afetivas sem que você perceba.

Pauline Garske

8/7/20263 min ler

Você conhece alguém novo.

A história parece diferente.

A personalidade é diferente.

Os hábitos são diferentes.

Os planos são diferentes.

E, por um tempo, tudo parece caminhar por um caminho que você nunca percorreu antes.

Mas então algo acontece.

Talvez surja a insegurança.

Talvez o medo de ser abandonado.

Talvez a sensação de não ser suficiente.

Ou a impressão de que você precisa se esforçar demais para ser amado.

E aquela dor, tão conhecida, aparece novamente.

Nesses momentos, é comum pensar:

"Por que isso sempre acontece comigo?"

O que poucas pessoas percebem é que, muitas vezes, não repetimos pessoas.

Repetimos emoções.

O cérebro não procura apenas felicidade. Ele procura familiaridade.

Existe uma curiosidade interessante sobre o funcionamento humano: nosso cérebro tende a se aproximar daquilo que conhece.

Isso não significa que alguém escolha sofrer.

Mas significa que situações familiares costumam parecer mais naturais, mesmo quando trazem desconforto.

Por isso, às vezes, alguém que cresceu sentindo que precisava conquistar atenção pode se sentir intensamente atraído por pessoas emocionalmente indisponíveis.

Alguém que aprendeu a cuidar de todos pode encontrar dificuldade em se relacionar com quem realmente oferece cuidado.

E quem cresceu convivendo com críticas pode passar anos tentando provar seu valor dentro das relações.

Não porque deseja viver isso.

Mas porque essas experiências conversam com aprendizados emocionais construídos muito cedo.

A infância continua morando dentro dos relacionamentos adultos

As primeiras relações da nossa vida nos ensinam muito mais do que imaginamos.

Elas ajudam a construir crenças silenciosas sobre quem somos, o que podemos esperar dos outros e como o amor funciona.

Sem perceber, crescemos carregando perguntas como:

Sou importante para as pessoas?

Posso confiar em alguém?

Minhas necessidades serão respeitadas?

Preciso agradar para ser amado?

Tenho valor mesmo quando falho?

As respostas emocionais que encontramos ao longo da infância e da adolescência costumam acompanhar a vida adulta.

E não raro aparecem justamente nos relacionamentos mais significativos.

Por isso algumas situações despertam reações tão intensas.

Às vezes, não estamos reagindo apenas ao que está acontecendo no presente.

Estamos tocando experiências antigas que ainda procuram compreensão.

Nem toda repetição é evidente

Quando falamos em padrões afetivos, muitas pessoas imaginam que se relacionam sempre com o mesmo tipo de parceiro.

Mas a repetição costuma ser muito mais sutil.

Ela pode aparecer quando você:

Tem dificuldade de colocar limites;

Assume responsabilidades que não são suas;

Sente medo excessivo de decepcionar;

Tolera situações que o machucam;

Se anula para manter a relação;

Precisa constantemente de validação;

Sente que nunca é prioridade.

O padrão nem sempre está na pessoa que você escolhe.

Muitas vezes está na forma como você aprendeu a se posicionar dentro dos vínculos.

O que a Terapia do Esquema tem a ver com isso?

A Terapia do Esquema é uma abordagem que busca compreender padrões emocionais profundos construídos ao longo da vida.

Esses padrões, chamados de esquemas, surgem quando necessidades emocionais importantes não foram plenamente atendidas durante a infância e a adolescência.

Com o tempo, eles passam a influenciar a forma como pensamos, sentimos e nos relacionamos.

É por isso que algumas pessoas convivem com um medo constante de abandono.

Outras sentem que precisam agradar para serem aceitas.

Algumas acreditam que nunca serão boas o suficiente.

E outras carregam a sensação de que precisam resolver tudo sozinhas.

Esses padrões não são defeitos.

São adaptações emocionais que fizeram sentido em algum momento da história.

Mas que, muitas vezes, deixam de servir na vida adulta.

É possível construir relações diferentes?

Sim.

Mas geralmente a mudança não começa quando encontramos a pessoa certa.

Ela começa quando desenvolvemos um olhar mais profundo para nós mesmos.

Quanto mais compreendemos nossas necessidades emocionais, nossas feridas e nossas formas de nos proteger, mais liberdade temos para fazer escolhas diferentes.

A transformação acontece quando deixamos de perguntar apenas:

"Por que meus relacionamentos não dão certo?"

E começamos a perguntar:

"O que minhas relações estão tentando me ensinar sobre mim?"

Como a terapia pode ajudar?

Muitas das nossas escolhas acontecem de forma automática.

A terapia oferece um espaço para compreender essas repetições com mais clareza, reconhecer padrões emocionais que atuam nos bastidores e construir formas mais saudáveis de se relacionar consigo mesmo e com os outros.

Não se trata de encontrar culpados no passado.

Trata-se de entender sua história com profundidade suficiente para que ela deixe de decidir por você.

Porque quando compreendemos aquilo que repetimos, abrimos espaço para algo novo.

E, muitas vezes, o primeiro relacionamento que precisa ser transformado é justamente aquele que temos com nós mesmos.

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